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Geraldo Lima e os caminhos do novo conto brasileiro

Geraldo Lima não é um nome desconhecido da atual ficção brasileira para aqueles que costumam observar e ler o que está além dos segundos cadernos dos jornais tradicionais. Já lançou, entre outros, “Baque” (LGE Editora), “UM” (LGE Editora), “Tesselário” (Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (Ponteio Edições), entre contos, romances e teatro, além de participar de algumas antologias e publicar em sites e revistas literárias, como o Correio das Artes. Agora, nos chega com mais um volume de contos – “Uma mulher à beira do caminho”, Editora Patuá, 2017.

 

São contos escritos ao longo de vintes anos, o que, conforme o autor, atesta uma certa disparidade de linguagem, tema e forma entre eles. Para ele, os mais antigos (que estão na primeira parte do livro) estão marcados por um exercício experimental de linguagem e forma. Os mais atuais (que estão na segunda parte da obra) buscam, segundo Geraldo Lima, enxugar os textos, “evitando os excessos para que a narrativa flua com mais naturalidade”. Pode ser, pode ser. Mas confesso que em minha avaliação os contos mais interessantes estão na primeira parte do livro, ou seja, os mais antigos e menos experimentais. Os da segunda parte passam a impressão de que ainda estão em construção, esperando uma conclusão.

 

Tensão, ritmo, imprevisibilidade, unidade, compactação, conflito, etc. Todas as características básicas de um bom conto estão presentes nos textos de Geraldo Lima, principalmente nos da primeira parte do livro. Pegue “Névoa”, por exemplo, onde ele narra as dificuldades da velhice de uma forma tão poética e sensitiva que poderíamos achar que ele é o personagem principal. Um personagem que vaga pelas ruas do bairro como se fora um fantasma do passado em um presente de uma cidade tumultuada e longe do lirismo: “Onde está aquele calor de antes? O que houve com aquele mundo? Não é possível reconhecer mais nada, nem ser reconhecido. A névoa. Ah, a névoa”.

 

“Mesa de Bar”, o conto seguinte, é permeado com diálogos e silêncios. E cismas, acrescentaria. Dois amigos que se encontram em um boteco qualquer para falar de uma possível traição sofrida por um deles. Ou seria dos dois? Afinal, aquela musiquinha doida e brega dar margem para tanta interpretação… “Uma mulher à beira do caminho”, que dá título ao livro, tem um erotismo às avessas. O motorista, que poderia vir a ser ministro do Supremo Tribunal Federal, encontra uma mulher no meio da estrada, numa noite chuvosa. Sim, o enredo é comum, mas a maneira como Geraldo Lima constrói o conto é que encanta. O motorista, futuro ministro, vive um duelo com ele mesmo para resistir ao desejo de uma relação sexual com aquela estranha mulher. A forma como o motorista se questiona durante toda a viagem da carona à mulher é que faz com que o leitor queira participar do conto, dar palpite, dizer se ele deve ceder ou não ao desejo.

“Retirada da Laguna” fala, em vários atos, como uma peça de teatro, da preparação para um rompimento que houve. Ou não houve. Em “Saídas”, um dos melhores contos do livro, Baltasar é um daqueles personagens entediados com tudo em torno dentro da repartição, um tédio que só é salvo pela loucura que os seios de Inês lhe provoca. “Jornada” fala de peregrinos, não só da fé, mas da busca por uma nova razão de viver, de uma forma que vai do lirismo à crueldade. Só que aqui a crueldade é meio que alucinação às vezes. Em “Você não volta mais?” a crueldade é real, fria, de quem quer resolver o que considera sua honra com a mais torpe atitude machista: o assassinato. Eis um resumo da primeira parte.

A segunda parte do livro, como falei acima, me passa uma impressão de algo inacabado ainda em alguns contos. Em outros, o vigor da prosa de Geraldo Lima se impõe, como em “Amanhã acordaremos mais tarde”, que considero o melhor dessa segunda parte. Geraldo Lima é um escritor que merece ser lido com muita atenção. Sua prosa flui naturalmente, como se estivéssemos andando pelas não-esquinas de Brasília e encontrássemos seus personagens.  Fique atento e não saia do caminho de seus contos.

 

linaldo.guedes@gmail.com

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