A imagética em Marly Costa – Por Lenilson Oliveira

Uma viagem. Não teria definição mais apropriada para o que sente o leitor de
Marly Costa, que transita com desenvoltura da prosa para a poesia – e vice-versa –
construindo, reconstruindo e desconstruindo seus mundos, vivências, fantasias e
realidades.

Dona de uma palavra segura, consciente do que dizer e de como dizer, ela se
desnuda nos cinquenta textos que nos chegam às mãos neste “Marly outonal”, já
provocativo e instigante pelo próprio título, como devem ser os bons livros.

Em alguns textos, ela se revela inteira em seus desejos e caprichos – quase
beirando o despudor – e, em outros, acalma-se em reminiscências, saudades e medos,
como se esses sentimentos não fossem somente seus e tivessem que ser partilhados com
a família, amigos e leitores.

Os extremos da alma humana se explicitam na prosa da menina que questionava
– até a bajulação dos pais com os padres-, da jovem que sonhava – já militante da
Juventude Comunista -, e da mulher que sempre lutou pelo que acreditou – sendo por
isso perseguida, presa e torturada pelo Regime Militar nos anos de chumbo no Brasil.

Uma alma sertaneja – mesmo tendo nascido no litoral – revela-se na descrição
poética de imagens e sensações somente sentidas por quem já desceu a Serra de Santa
Luzia e foi queimado por um “solzão” de lascar e aliviado pelo aracati.

Praiana, num piscar de olhos, ela atravessa a BR-230 e leva o leitor para o Jacaré
para ouvir o Bolero de Ravel tomando uma cerveja, mas não sem antes se deliciar com
Mozart e um bom vinho.

Assim é a prosa-poética da nordestina orgulhosa, da paraibana forte e da
pessoense sertaneja, capaz de fazer o leitor ver a inocência de sua mãe, “ainda menina”,
querendo brincar “o boi” com o cangaceiro Antônio Silvino e sentir o cheiro das
castanhas assando.

Isso tudo é imagética – diriam os teóricos. Como não os somos, chamamos de
força da imaginação.


(*) Apresentação do livro “Marly Outonal”, de Marly Costa, em edição independente de 2014

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