Criamos um monstro – Por Alexandre Costa

Assolado por uma das suas maiores crises éticas e morais da sua história, que envolve figurões de todos os poderes da República acusados de integrarem uma organização criminosa travestida de banco, o Brasil põe em xeque as suas enxovalhadas e combalidas instituições.

Os números são superlativos. A fraude do Banco Master produziu a maior fraude bancaria do Brasil de todos os tempos. Um rombo na praça na ordem de R$ 50 bilhões arquitetado pelo seu controlador Daniel Vorcaro, que estabeleceu uma relação incestuosa que envolve ministros da Suprema Corte, ministros de Estado, presidentes do parlamento brasileiro, políticos e até diretores do Banco Central.  

Algo surreal, digno de um roteiro de um filme hollywoodiano Idealizado e concebido pelo Vorcaro, que designou um matador de aluguel para “capturar” imagens das mais altas autoridades da República em bacanais em mansões paradisíacas no litoral brasileiro e em milionários e comprometedores convescotes internacionais para conseguir seus intentos em forma de futuras chantagens.

A fraude do Banco Master não é um caso isolado; o assalto sistemático de R$ 6 bilhões de aposentados do INSS perpetrado por diretores e funcionários da própria instituição em conluio com empresas e instituições que promoviam descontos fraudulentos nos proventos de míseros aposentados brasileiros denota claramente o processo crescente de degradação das nossas instituições.

Afinal, o que está acontecendo com o Brasil?   Esta foi a pergunta que escutei, em uma recente viagem à Europa, na cidade de Barcelona, de um atento investidor espanhol, em uma roda de conversa que abordava a atual crise brasileira. Confesso que fiquei surpreso não só por ele, como investidor no Brasil, conhecer a fundo a nossa crítica realidade política e institucional atual, mas pela rapidez com que ele mesmo engatou a resposta: “O problema do Brasil não é técnico: é ético”. O fato é que a crise institucional brasileira, que transpôs fronteiras e já inibe investimentos externos aqui no país, não só pela nossa confusa e escorchante carga tributária, agora é também insegurança jurídica instalada no país.

O investidor catalão não conseguia entender o fato de como existiria no Brasil um inquérito em tramitação na Corte Superior do País instaurado há sete anos em nome de uma questionável defesa da democracia, em que um só juiz assumiu pra si funções que são prerrogativas de autoridades distintas do sistema de justiça: vítima, investigador e julgador.

Este inquérito tem nome. O chamado inquérito das fake news foi instaurado em 2019, por decisão do então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, sem provocação direta do Ministério Público, e com a designação direta da relatoria para o ministro Alexandre de Moraes, com o objetivo de investigar ações das milícias digitais nas redes sociais, atos antidemocráticos e ataques àquele tribunal, estuprando todo o devido processo legal. Esses dois ministros foram alvos de vazamentos na imprensa devido à sua ligação visceral com a rede criminosa do Vorcaro, levantando suspeitas de que alguns deles seriam supostos sócios ocultos do Banco Master.

Uma barbárie jurídica sem precedentes que destruiu o sistema de justiça brasileiro, atingindo em cheio o seu maior ativo institucional, a sua credibilidade. Ataques estes que contaram com a indiferença da população, conivência da imprensa e setores da sociedade civil organizada em nome de perseguir e eliminar um determinado e momentâneo espectro político antagônico.

Criamos um monstro. Como extirpar da nossa Corte maior estes escroques de toga? O Senado Federal, instituição com prerrogativas constitucionais para pedir o impedimento desses magistrados, apenas arquiva coniventemente os pedidos, deixando o país imerso na maior crise institucional de sua história, sem qualquer perspectiva de retorno à normalidade democrática. 

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