De volta aos trilhos – Por Alexandre Costa
A viagem de operação-teste do primeiro comboio da Ferrovia Transnordestina, realizada em meados de dezembro passado, passou desapercebida da mídia nacional. No afã de cobrir as crescentes crises institucionais que envolvem os três poderes da República, simplesmente deixou de dar o merecido destaque a este momento histórico. Um verdadeiro ponto de inflexão na história do modal ferroviário no Brasil.
Anunciada em 2006 como um dos maiores projetos ferroviários do país a um custo inicial estimado de R$ 4,5 bilhões, a Transnordestina, em seu projeto original, previa a implantação de 1750 km de trilhos, interligando mais de 80 municípios nos estados do Piauí, Pernambuco e Ceará. O projeto partia do município de Eliseu Martins (PI) até o entroncamento de Salgueiro (PE) e, a partir de Salgueiro, interligava o porto do Pecém (CE) e o porto de Suape (PE), com o objetivo de escoar a produção do agronegócio, minérios e combustíveis por dois dos maiores portos do Nordeste.
Em 2022, depois de várias paralisações ocasionadas por falta de aporte de recursos, esta ferrovia teve o trecho Salgueiro-Suape de 544 km cancelado. Ele foi reinserido novamente em 2025, depois de um forte movimento das lideranças políticas de Pernambuco, que pressionaram o Governo Federal a assumir a execução deste trecho.
O projeto é fruto de uma parceria público-privada entre a União e a Companhia Siderúrgica Nacional CSN, controladora da Transnordestina Logística TLSA, empresa que constrói a obra e vai operar os 1206 km da ferrovia. Ele entra na reta final com 78% das obras executadas, faltando concluir os trechos de Eliseu Martins a Bela Vista (PI) e de Iguatu ao Pecém (CE). Depois de 20 anos, a TLSA, com recursos assegurados, finalmente arriscou uma previsão de conclusão total do projeto para 2029 a um custo final de mais de R$ 14 bilhões. Nada de novo em termos de Brasil quando se fala de construção de obras que envolvem o poder público: estouro de prazos de execução e custos estratosféricos.
A viagem inaugural foi, na verdade, o início das fases de testes de carga e descarga, operação e marcha. O primeiro comboio de 20 vagões carregando milho percorreu 585 km entre os municípios de Bela Vista, no Piauí, e Iguatu, no Ceará, levando apenas 12 horas e 8 minutos.
Um momento histórico que depois do “rodoviarismo” implantado no Plano de Metas do Governo JK nos anos 1950, sepultou as ferrovias brasileiras. Estes três estados dos nordestinos estão literalmente de volta aos trilhos com mais uma opção de modal de transporte moderno, eficiente e extremamente competitivo, fator decisivo para incremento do PIB destes estados.
Enquanto isso, estados como a Paraíba e o Rio Grande do Norte, que estão fora do traçado original da Transnordestina, enfrentam a inércia e a miopia de suas representações políticas, que nada fizeram para incluir esses estados em um novo traçado, resultando na única opção para os paraibanos e potiguares: ver o trem passar.
Alexandre José Cartaxo da Costa é engenheiro, empresário, secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia do município de Cajazeiras, diretor da FECOMERCIO-PB, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios, membro efetivo e fundador da Academia Cajazeirense de Artes e Letras-ACAL.
