Trump, óleo e medo – Por Alexandre Costa

A cinematográfica intervenção militar dos EUA em solo venezuelano, que culminou com a captura do ditador Nicolás Maduro, denunciado pelo Departamento de Justiça americano desde 2020 e reiterado em 2025 por liderar o Cartel de los Soles com práticas de terrorismo e tráfico de drogas, deu novos contornos à geopolítica mundial, redesenhando e consolidando o mapa do poder no século XXI nas mãos dos Estados Unidos da América, China e Rússia, o chamado o novo mundo tripolar.

Ao enviar Maduro para uma cela no Brooklyn, em Nova York, afrontando todas as normas do direito internacional, Trump não estava pousando de xerife mundial contra traficantes e terroristas. Ele estava de olho no continente sul-americano, a segunda maior reserva da commodity mais valiosa do planeta: o petróleo.

Ao afirmar “este é o nosso hemisfério”, logo após a operação militar na Venezuela, Trump reinaugura a Doutrina Monroe em pleno século XXI, que preconiza o domínio das Américas pelos americanos.

Instituída em 1823 pelo presidente James Monroe (1758-1831), a Doutrina Monroe era um instrumento protecionista de política externa dos EUA do século XIX para proteger o país do retorno de intervenções e colonizações europeias. Hoje, esta doutrina está aplicada de forma implícita e pragmática quando Trump enxerga os maciços investimentos chineses no continente sul-americano como uma forma de “intervenção” na região.

A política unilateralista do Trump conseguiu mapear a forte expansão chinesa em novas fronteiras petrolíferas do continente em países como Suriname, Argentina, Guiana e Brasil. A partir de 2010, as petroleiras chinesas começaram a se associar a outras empresas, inclusive com a Petrobras. Segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os investimentos chineses no setor de óleo e gás entre 2020 e 2024 ultrapassaram os US$ 6 bilhões. Hoje, as empresas petroleiras chinesas em solo brasileiro, CNPC, SINOPEC e CNOOC, produzem algo na ordem de 305 mil barris por dia, 6,2% da nossa produção.

A China não só aumentou suas compras do petróleo sul-americano, mas fez uma silenciosa transformação estratégica: passou de cliente para detentor de reservas. Eis aqui a principal causa da deposição de Maduro. Nada de restabelecer democracia, liberdade, direitos humanos, coisa nenhuma. O trunfo é petróleo.

 O sempre enigmático e imprevisível Trump, com este estilo, torna impossível identificar quando ele está falando a verdade ou é pura bazófia, voltou a amedrontar o mundo com a esdrúxula e tresloucada proposta de invadir a Groenlândia e agora ameaça atacar o Irã em represália à brutal repressão, do já colapsado regime dos aiatolás, contra manifestantes em Teerã, uma matança dantesca que já resultou em mais de 3000 mortos.

Um possível ataque dos EUA ao Irã com certeza redesenhará um novo xadrez geopolítico mundial. A China, que até agora estava jogando parado, se posicionará a favor dos iranianos, não por defender e apoiar a teocracia dos aiatolás, mas para aproveitar a oportunidade de pôr os pés no estreito de Ormuz, por onde passa 25% da produção de petróleo do mundo, fato que pode gerar o início de uma convulsão mundial de efeitos imprevisíveis.   

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