Escudo das Américas: cooperação ou doutrina de dominação? – Por Alexandre Costa
A decisão do Escudo das Américas de manter o Brasil fora da coalizão ganhou nova dimensão nesta semana, depois que os 15 países da aliança anunciaram medidas coordenadas contra 24 organizações classificadas no documento como “narcoterroristas transnacionais”. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas das maiores organizações criminosas do país. As medidas incluem, conforme a legislação de cada país, congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização de pessoas que ofereçam apoio material aos grupos.
O Escudo das Américas é uma coalizão liderada pelos Estados Unidos. Reúne países latino-americanos e foi concebido para ampliar a cooperação contra o narcotráfico e outras organizações criminosas transnacionais, mediante compartilhamento de inteligência, treinamento, intercâmbio de tecnologias e operações coordenadas, amparadas por uma forte articulação diplomática e financeira.
É óbvio que, neste tema, a soberania nacional é inquestionável. Nenhuma cooperação internacional pode significar submissão ou perda do comando brasileiro sobre seu território. Mas soberania não é sinônimo de isolamento. Um país soberano pode celebrar acordos específicos de cooperação com os Estados Unidos para combater o narcotráfico, preservando o comando brasileiro e os limites da atuação estrangeira.
A Amazônia tornou-se um importante corredor logístico do narcotráfico internacional. A presença insuficiente do Estado permite que organizações criminosas ampliem sua influência, consolidando aquilo que muitos já identificam como Estado paralelo. O problema, contudo, não está restrito à Amazônia. Pesquisa Datafolha aponta que, em 2025, 19% da população brasileira, equivalente a pelo menos 28,5 milhões de pessoas, relatou a presença de facções ou milícias em seu bairro.
Por que o Brasil ficou fora do Escudo das Américas? O pomo da discórdia surgiu na declaração oficial do grupo, divulgada na terça-feira (22/09), que não apenas previa os eixos de Segurança e Coordenação multilateral, mas também um eixo econômico destinado a “aumentar a cooperação econômica, proteger cadeias de abastecimento de minerais críticos e regulamentar fornecedores de infraestrutura digital”.
É evidente que esta coalizão produz efeitos que ultrapassam o combate ao narcotráfico e alcançam a geopolítica mundial. Seus movimentos são observados sob o prisma das disputas estratégicas que envolvem os Estados Unidos, a China e os países latino-americanos. Brasil e México, por suas posições políticas e estratégicas, levantaram dúvidas sobre as implicações da iniciativa para a soberania das nações signatárias e optaram por não participar dela.
As recentes sanções da aliança Escudo das Américas reforçam essas suspeitas. Elas indicam que os propósitos da iniciativa podem estar muito além da retórica diplomática e alimentar a interpretação de uma retomada, ainda que sob novas formas, da lógica da Doutrina Monroe do século XIX, que estabelecia a pretensão de supremacia dos Estados Unidos sobre as Américas. Segundo seus críticos, o combate aos cartéis e narcotraficantes poderia funcionar também como instrumento de projeção de poder norte-americano na região. Nos dias de hoje, essa leitura ganha ainda mais força diante da disputa pelo crescente avanço econômico e estratégico da China no continente.
Diante desse cenário, o Brasil precisa discutir, sem preconceitos ideológicos, qual estratégia oferece maior capacidade de enfrentar o crime organizado sem comprometer sua soberania. A pergunta, portanto, permanece: ficar fora é preservar a soberania ou pode significar abrir mão de uma oportunidade de fortalecer a segurança nacional? A resposta não pode ser ideológica. Precisa ser brasileira, soberana e voltada à proteção da sociedade.
