Terras raras: o que fazer? – Por Alexandre Costa
Detentor de uma das maiores riquezas estratégicas do século XXI, o Brasil simplesmente não sabe o que fazer com as suas terras raras. Este é o ativo mineral mais importante do mundo moderno que vai ditar os rumos do avanço tecnológico da humanidade neste segundo quartel de século.
Compostas por 17 elementos químicos da Tabela Periódica, as chamadas terras raras são motivos de cobiça em todo o mundo por serem consideradas, além de insubstituíveis, extremamente difíceis de extrair e processar.
Utilizadas em larga escala na indústria de tecnologia de ponta em vários setores. Na Indústria Verde, produzindo motores e baterias de carros elétricos, painéis solares e turbinas eólicas. Na Alta Tecnologia, produzindo tela de TV, smartphones, monitores, lentes de câmeras e lasers. Na medicina, com pesquisa e desenvolvimento de equipamentos de ressonância magnética, aplicações e tratamento de câncer e em estudos e pesquisas com radioisótopos. Na área de Defesa, usados na produção de ímãs superpotentes utilizados na indústria aeroespacial e equipamentos militares com aplicação em mísseis, satélites, radares e sistemas de comunicações.
O Brasil é classificado como a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 23 milhões de toneladas, ficando atrás da China, que possui 44 milhões de toneladas e é a líder isolada não apenas em reservas, mas também no setor que abrange extração e refino, dominando 95% da cadeia produtiva mundial desse mineral crítico. Precisamos urgentemente transformar este nosso potencial mineral em valor.
O que chamou mesmo a atenção do mundo na sexta-feira (17), foi o acordo para venda de 100% da mineradora brasileira de terras raras Serra Verde, em Goiás, para a empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR). Uma transação na ordem de US$ 2,8 bilhões, uma ninharia, segundo especialistas internacionais da área, considerando que a mineradora brasileira é a única fora da Ásia que processa em escala quatro elementos magnéticos de terras raras (térbio, praseodímio, disprósio e neodímio).
A venda da Serra Verde não se trata de uma simples operação de compra e venda no mercado mundial de mineração, mas de futuro, soberania, tecnologia, mercado e geopolítica global. Considerando que nesta operação a USAR recebeu um aporte de US$ 565 milhões do governo americano, fica clara a intenção de Washington em deter o avanço chinês neste crucial setor estratégico que mexe com a geopolítica mundial.
O Brasil precisa saber os detalhes desta venda da Serra Verde para os americanos. Onde estão as contrapartidas tecnológicas? Não basta extrair; temos que absorver a tecnologia para extrair, processar e refinar estes minerais críticos. Será que, mesmo literalmente estando sentados no ouro, vamos continuar insistindo no mesmo erro, exportando mais uma commodity?
O país precisa urgentemente de um marco regulatório das terras raras para tratar e discutir o tema, não como política de governo, e sim como uma política de Estado; afinal, está em jogo o nosso desenvolvimento socioeconômico, a nossa autonomia tecnológica, a soberania do Estado brasileiro e uma oportunidade única de entrarmos no tabuleiro da geopolítica mundial.
