Como as bets se tornaram um flagelo nacional – Por Alexandre Costa
A forma abusiva de divulgação de promoções de bets pelo canal CazéTV durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo custou à emissora uma investigação do Ministério da Justiça. Mas por que investigar apenas um canal de comunicação, se todo o país é diariamente bombardeado por uma onda avassaladora de publicidade das casas de apostas on-line — as chamadas bets — em rádios, televisões, jornais, blogs, sites e redes sociais, sem limites efetivos para uma atividade cujos impactos sociais vêm sendo amplamente debatidos?
Um estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), intitulado “Impacto das Apostas Online no Endividamento e na Inadimplência das Famílias Brasileiras”, apresenta números preocupantes sobre os efeitos econômicos da expansão das apostas no país. Segundo o levantamento, entre 2023 e março de 2026, os brasileiros destinaram aproximadamente R$ 143 bilhões às apostas esportivas, valor equivalente ao faturamento do varejo brasileiro durante os períodos de Natal de 2024 e 2025 somados.
O mesmo estudo aponta que os gastos mensais com apostas alcançaram R$ 30 bilhões em março de 2026, representando um crescimento superior a 500% em relação a janeiro de 2023, quando esse mercado ganhou forte impulso no Brasil. Trata-se de um montante comparável à receita mensal de todo o setor de planos privados de saúde em 2025, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Os impactos, entretanto, não se restringem à economia. Levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que os custos sociais associados às apostas superam R$ 38,8 bilhões por ano. Desse total, cerca de R$ 17 bilhões estariam relacionados a tentativas de suicídio e mortes associadas ao transtorno do jogo; aproximadamente R$ 10 bilhões decorreriam da perda de qualidade de vida provocada pela depressão; e cerca de R$ 3 bilhões seriam destinados ao tratamento dessas e de outras consequências relacionadas ao vício em apostas.
Forma-se, assim, um contraste significativo. Enquanto as bets arrecadaram cerca de R$ 6,8 bilhões em tributos em 2024, os custos sociais estimados seriam várias vezes superiores. Além disso, segundo os dados apresentados, o setor gerou apenas 1.144 empregos diretos no mesmo período.
Na outra ponta, as plataformas de apostas, representadas pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), contestaram formalmente os resultados da pesquisa da CNC. A entidade solicitou acesso integral à metodologia, aos bancos de dados e aos modelos estatísticos utilizados, alegando que parte das conclusões seria incompatível com indicadores oficiais e classificando os números como excessivamente alarmistas.
Independentemente da divergência entre as instituições, um fato parece inegável: as apostas on-line movimentam um volume bilionário de recursos que deixa de circular na economia real. Recursos que poderiam ser destinados ao consumo de bens essenciais, como alimentação, medicamentos, educação, vestuário e moradia, acabam sendo canalizados para plataformas de apostas, muitas delas controladas por empresas sediadas no exterior. Diversos estudos também apontam uma relação entre a expansão desse mercado e o aumento do endividamento das famílias brasileiras.
O Brasil já enfrentou desafios semelhantes no passado. Muitos se lembram do célebre comercial do cigarro Vila Rica, em que o jogador Gérson dizia: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. A partir dali, o país levou décadas para construir uma legislação capaz de restringir a publicidade do tabaco e conscientizar a população sobre seus riscos. Processo semelhante ocorreu, em diferentes momentos, com as bebidas alcoólicas.
No caso das bets, o desafio ainda está em curso. A velocidade da expansão desse mercado parece ter superado a capacidade de resposta do Estado. Enquanto o setor continua crescendo, aumentam também as preocupações com seus efeitos sobre o endividamento, a saúde mental e o bem-estar das famílias brasileiras.
O debate já não deve se limitar à arrecadação tributária ou à liberdade econômica. Trata-se de discutir quais mecanismos de regulação, fiscalização e proteção ao consumidor são necessários para reduzir os danos sociais de uma atividade que, para um número crescente de especialistas, deixou de ser apenas entretenimento e passou a representar um dos mais relevantes desafios sociais e econômicos do Brasil contemporâneo.
