O Brasil de volta aos trilhos – Por Alexandre Costa

Relegado a segundo plano pelo Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, que prometia desenvolver o país “50 anos em cinco”, em meados da década de 1950, o modal ferroviário brasileiro começou a perder protagonismo com a priorização do “rodoviarismo”, que via na indústria automobilística e no transporte rodoviário um vetor indispensável ao processo de industrialização do país na segunda metade do século passado.

A visão desenvolvimentista de Juscelino, embora acertada para as circunstâncias da época e decisiva para impulsionar a economia nacional, acabou criando, inadvertidamente, uma cultura “antiferroviária” na sociedade e nos governos que o sucederam, inclusive durante o Regime Militar. Seus reflexos persistem até hoje.

Não era preciso ser especialista para compreender que concentrar quase toda a logística nacional no modal rodoviário não daria certo em um país de dimensões continentais. O Brasil paga um preço altíssimo por esse equívoco histórico, que descarrilhou parte do nosso futuro. Perdemos competitividade nos mercados interno e externo porque dependemos excessivamente do transporte por caminhões, sujeito a longos percursos, desperdícios e custos crescentes, fatores que elevam o preço final dos produtos e reduzem a eficiência da economia.

Desde a inauguração da Estrada de Ferro Mauá, em 1854, primeira ferrovia do país, o setor alternou momentos de expansão e abandono. Com a criação da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), em 1957, o Brasil chegou a possuir cerca de 37 mil quilômetros de trilhos. Hoje, restam aproximadamente 30 mil quilômetros, muitos deles subutilizados. Entre as décadas de 1960 e 2000, cerca de 8 mil quilômetros de ferrovias foram desativados, um verdadeiro despropósito logístico para um país de dimensões continentais.

Mas esse cenário começa, finalmente, a mudar. A aprovação da Lei nº 14.273/2021, que instituiu o Marco Regulatório das Ferrovias, facultou à iniciativa privada solicitar diretamente ao governo autorização para construir e operar novas ferrovias, pátios e terminais, criando um ambiente mais favorável aos investimentos e à expansão da malha ferroviária.

E não é que funcionou? O setor voltou a respirar. Segundo a Agência Infra, três grandes projetos estruturantes avançam em diferentes estágios de implantação: a FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), a FICO (Ferrovia de Integração Centro-Oeste) e a Transnordestina. Juntas, somam cerca de 3.600 quilômetros entre trechos em construção e planejados, representando a maior retomada dos investimentos ferroviários das últimas décadas.

Ainda estamos em uma fase embrionária, mas ela representa uma oportunidade histórica. O Novo PAC prevê investimentos de até R$ 220 bilhões em infraestrutura, dos quais uma parcela relevante poderá impulsionar o renascimento das ferrovias brasileiras. Se esse esforço for mantido, o país poderá iniciar a maior reconstrução de sua malha ferroviária em mais de meio século.

Mais do que recuperar trilhos, estaremos recuperando competitividade, reduzindo custos logísticos e criando as condições para um novo ciclo de desenvolvimento. É assim que o Brasil poderá, finalmente, voltar aos trilhos.

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