Quando o crime desafia a soberania nacional – Por Alexandre Costa
Despontando nas pesquisas como uma das maiores preocupações dos brasileiros, o tema da segurança pública chegou às mentes pensantes do Exército Brasileiro, que alertam que o crime organizado no Brasil não deve ser tratado apenas sob a ótica da segurança pública. Ele transcendeu essa concepção e evoluiu para se tornar um gravíssimo problema de soberania nacional.
Um recente artigo publicado no Caderno de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra (ESG) esmiúça o avanço do crime organizado na Tríplice Fronteira, que abrange Brasil, Peru e Colômbia, e introduz o conceito de “Uso Dual Negativo”, no qual a mesma tecnologia usada para servir e proteger o cidadão também é utilizada para disseminar o crime.
São atores não estatais hostis que utilizam redes globais para degradar a autoridade do Estado. É o crime organizado usando a Starlink, uma tecnologia de internet via satélite, para coordenar, naqueles territórios, o narcotráfico, o desmatamento, o garimpo ilegal, além de disputar ferrenhamente o controle das rotas fluviais e terrestres.
Esse mesmo estudo mostra que o PCC e o CV se reinventaram e expandiram seus tentáculos para pequenas cidades, onde impõem seu poder territorial. De acordo com pesquisa do Datafolha de 2026, 41% dos brasileiros relatam perceber a atuação do crime organizado em seu bairro, o equivalente a cerca de 68,7 milhões de brasileiros. Onde o Estado não chega, o crime cria e impõe sua governança paralela.
O crime organizado no Brasil já não funciona como uma quadrilha ou gangue. Atua com uma sofisticada “arquitetura em rede”, na qual o crime se transformou em uma holding que dispõe de segurança, setor financeiro, marketing e logística, operando dentro de um sistema totalmente conectado e descentralizado. Isso, sim, representa a erosão da soberania brasileira.
A saída não é mais apenas colocar polícia nas ruas. O enfrentamento precisa ser sistêmico e deve se concentrar em três eixos principais: 1) asfixiar o caixa e a logística das organizações criminosas. Sem dinheiro e sem rotas, o sistema desmorona; 2) derrubar a rede, quebrando sua comunicação e logística, por meio da integração entre Exército, Receita Federal, COAF, ABIN, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, utilizando a lógica de seguir o dinheiro, a arma e a rota; 3) eliminar a figura do Estado paralelo, retomando os territórios ocupados e oferecendo saúde, educação e segurança — funções que hoje são, muitas vezes, providas pelo crime. Sem a presença efetiva do Estado, a criminalidade inevitavelmente retorna.
Enquanto isso, o país assiste a uma pré-campanha eleitoral que transformou o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil em pauta dominante do debate político, sob o argumento de que se trata de uma questão de soberania nacional. Embora o tema mereça atenção e deva ser tratado nas mesas da diplomacia comercial, ele não pode obscurecer uma ameaça muito mais profunda e permanente.
O verdadeiro risco à soberania brasileira está dentro de casa. O crime organizado já não é apenas um caso de polícia. Transformou-se em uma questão de defesa nacional e na mais grave erosão da autoridade do Estado sobre o seu próprio território.
A soberania de uma nação não se mede apenas pela força de suas fronteiras, mas, sobretudo, pela capacidade do Estado de exercer sua autoridade sobre cada palmo do seu território.
