Ventos da mudança – Por Alexandre Costa
Logo pela manhã, com o e-Título no celular e uma colinha no bolso, rumei para minha seção eleitoral, localizada no tradicional Instituto Nossa Senhora do Carmo, onde estudei e onde meus filhos também fizeram escola. A chamada Escola de Carmelita ainda hoje é considerada uma excelente e respeitável instituição de ensino de renome regional, responsável pela formação básica de gerações de cajazeirenses proeminentes espalhados por todo o país.
Era um dia ensolarado e quente do primeiro domingo de outubro. Mantendo uma tradição familiar, ao me dirigir à seção eleitoral, praticamente sem fila, percebi em todo o recinto um clima de normalidade associado a uma certa apatia generalizada, comparada a pleitos anteriores. Deixei meu voto e saí ressabiado, mas dei de ombros, achando que aquilo era um fato pontual, e segui para a missa das 10h, na Catedral Nossa Senhora da Piedade, para concluir uma rotina que sigo há décadas em domingos de pleitos eleitorais. Ao percorrer esse trajeto, percebi ruas praticamente desertas, algo que não condizia com um dia de eleições. Ah, pensei, este marasmo deve ser mesmo somente em algumas ruas. Não era. Resolvi percorrer alguns bairros e constatei que, de fato, as pessoas não saíram às ruas; provavelmente teriam viajado ou se enclausurado em casa.
Não me dei por vencido. Resolvi ir à Praça João Pessoa, ponto de encontro festivo nos domingos de eleições das diferentes alas políticas, munidas de bandeiras, cornetas e apitos, postadas em calçadas opostas, num xingamento mútuo que produzia um barulho infernal e ensurdecedor. Esta foi a fiel imagem contrastante que ainda guardo na minha cabeça da eleição de 1982, quando me deparei, naquele domingo, com aquele espaço deserto, imerso em um silêncio de morte.
Afinal, o que levou o brasileiro a esta apatia com o processo eleitoral que antes cultuava e chamava de festa da democracia? Simples: o brasileiro cansou. Não acredita nas instituições que o representam; um Estado vampiro, que lhe suga a renda em impostos extorsivos e nada lhe devolve em serviços públicos decentes; um Legislativo que capturou o orçamento do Poder Executivo para se locupletar em desvios fraudulentos via orçamento secreto e emendas Pix; e, por fim, um Judiciário hipertrofiado, capturado por alguns ministros da Suprema Corte, transformados em verdadeiros políticos togados, que destruíram o sistema de justiça, mergulhando o país na maior insegurança jurídica da sua história.
Essa descrença e apatia com o processo eleitoral emergiram da abertura das urnas deste domingo: a abstenção deste primeiro turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o maior índice desde 1998, registrou 21,08%, algo em torno de 33,4 milhões de eleitores que não compareceram às urnas, enquanto os votos nulos e em branco se estabilizaram em 5,8 milhões (4,77%) de eleitores que não escolheram nenhum candidato.
Esse desalento eleitoral, aliado a um erro estratégico de campanha do Partido dos Trabalhadores (PT), que acreditava que poderia ganhar a eleição no primeiro turno, foi exacerbado pela soberba que subestimou seu adversário. Além disso, houve a falta de compreensão de que a maioria do eleitorado não queria apenas pacotes de bondades. A lição que fica é que o eleitor deseja mudanças estruturais que livrem o país da balbúrdia institucional.
E os ventos dessas mudanças começaram a soprar das urnas, com o avanço da segunda onda da direita, a eleição de 20 governadores no 1.º turno, uma Câmara mais conservadora e uma vitória acachapante do PL no Senado, passando de 9 para 28 senadores. Talvez o silêncio das ruas não fosse apatia, mas o prenúncio de uma mudança. E, quando os ventos mudam de direção, as urnas costumam ser as primeiras a registrar a mudança dos tempos.
