Uma cidade chinesa na Bahia? – Por Alexandre Costa
O alvoroço causado pelas imagens viralizadas nas redes sociais da construção de um suposto conjunto residencial exclusivo para abrigar trabalhadores chineses dentro da área do complexo industrial da fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, levantou suspeitas dos baianos sobre um dos maiores investimentos em infraestrutura no Brasil. Isso suscitou o debate sobre os riscos da nossa crescente dependência econômica da China.
Os números do empreendimento da gigante chinesa, que chega para produzir carros elétricos com tecnologia de ponta, impressionam pelos quantitativos envolvidos no projeto: são quase R$ 6 bilhões de investimentos para produzir 600 mil carros por ano, gerando mais 20 mil empregos diretos e indiretos dentro de uma área de 4,6 km². Pela área total ocupada, superior aos dois menores municípios do país, não se trata de uma simples planta, mas de uma megaestrutura industrial de escala territorial.
Desde que adquiriu a antiga fábrica da Ford em Camaçari em 2021, a BYD vem sendo alvo de suspeitas, não só pela estranha forma como está sendo tocado o projeto, mas pelas pesadas autuações do Ministério do Trabalho e Emprego, que em 2024 constatou irregularidades nas obras da fábrica, identificando 471 chineses trazidos irregularmente para o Brasil, resgatando entre eles 173 que trabalhavam de forma análoga à escravidão.
O foco das suspeitas e inquietação dos camaçarienses começou com a construção de módulos habitacionais permanentes e semipermanentes dentro do complexo para abrigar trabalhadores, principalmente chineses, na implantação de todo o complexo fabril e, depois, os operários da fábrica que já se encontra produzindo em fase inicial desde o ano passado.
Não se trata apenas de simples alojamentos, mas de uma completa e moderna estrutura funcional de moradia com restaurantes, áreas comuns, rotinas próprias e circulação restrita para acolher centenas de trabalhadores, um conceito usado em vários países, em que moradia e fábrica ficam próximos para otimizar o ritmo das obras sincronizados aos turnos operacionais.
Com mais de 50 anos de relações diplomáticas consolidadas, hoje a China é o nosso maior parceiro comercial, registrando superávits comerciais consecutivos há 17 anos. Segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), somente em 2025 a corrente de comércio entre os dois países atingiu US$ 171 bilhões, registrando um saldo superavitário brasileiro de US$ 29 bilhões, número equivalente a 43% de todo superávit brasileiro com o comércio global.
O fato é que o Brasil vive hoje uma relação comercial assimétrica com a China. Exportamos produtos primários de baixo valor agregado, como petróleo, soja e minério de ferro, enquanto, na outra ponta, importamos produtos manufaturados de tecnologia avançada com altíssimo valor agregado a baixíssimos preços, que dizimam a indústria nacional. Eis a fórmula perfeita que coloca a economia brasileira subordinada à dinâmica e conveniências da economia chinesa.
Os vigilantes e ressabiados camaçarienses estão certos. Toda vigilância nunca é demais quando se trata de um parceiro com o perfil como o da China, que adota uma agressiva e predatória política de livre mercado associada a um implacável regime político ditatorial.
